A mulher negra na Dança do Ventre

Por Maristela Rosa

dia 24/11/2013

No primeiro “Para refletir” do nosso blog pensei em várias coisas pra escrever, acabei escolhendo um fato que sempre me atormentou muito: ser uma bailarina negra na dança do ventre. O fato de ser uma dança árabe e as bailarinas mais famosas sempre serem branquinhas e com um cabelo bem liso, seja liso de fato ou alisado artificialmente, sempre me deixou um pouco desconfortável.  O fato é que, por algum tempo, achei que nunca seria uma bailarina levada a sério, pelo simples fato de ser negra e ter o cabelo crespo – ao qual, hoje em dia, me recuso a alisar.

A dança do Ventre tem registro de inicio na Índia - a mulher indiana e seus traços típicos são bem diferentes da "mulher branca".
A dança do Ventre tem registro de inicio na Índia – a mulher indiana e seus traços típicos são bem diferentes da “mulher branca”.

Para escrever da forma mais informativa e esclarecedora possível, fui procurar referencias e fiquei horrorizada. Se você digitar “mulher negra na dança do ventre” no Google, vai perceber que, ao menos na internet, não há nenhuma literatura séria sobre o assunto. As únicas coisas que achei foram uma comunidade desativada do Orkut intitulada ‘Mulheres negras na Dança do Ventre’ e alguns blogs que ensinavam uma bailarina negra a como se maquiar – ao menos já se percebe a mulher negra dentro da dança árabe. Fiquei triste em perceber que ninguém quis se debruçar sobre o assunto, então peço a compreensão de vocês, estou partindo do zero.

Então, para ter uma base, resolvi voltar na história da Dança do Ventre.  Segundo o site http://www.dancealmha.com, não há um registro exato de quando esta dança teve início, porém sabe-se que “suas manifestações primitivas, cujos movimentos eram bem diferentes dos atualmente executados, tiveram passagem pelo Antigo Egito, Babilônia, Mesopotâmia, Índia, Pérsia e Grécia, tendo como objetivo através ritos religiosos, o preparo de mulheres para se tornarem mães (Penna, 1997)”. Bem, o que queremos destacar aqui são os países e regiões de origem da Dança do Ventre. Onde também são confirmadas essas origens é no site http://www.khanelkhalili.com.br: “Há muitas teorias sobre suas origens, uma das quais é, que tem suas raízes na Índia e que de lá foi difundida pelos ciganos que a divulgaram no Ocidente. Outros dizem que ela nasceu no Antigo Egito, e querem traçar no passado sua origem de acordo com antigas danças rituais  da Idade da Pedra, nas religiões que cultivavam a grande Deusa”.

Bem, as duas referências destacam a Índia e o Antigo Egito, como origens da Dança do Ventre. Pois bem, se observamos as mulheres indianas e egípcias, vamos perceber que essas estão longe do perfil da “mulher branca”. Quem não conhece a História de Cleópatra, a Rainha do Egito? Bom, segundo a revista IstoÉ, Cleópatra era negra. (http://www.istoe.com.br/reportagens/10737_CLEOPATRA+ERA+NEGRA) “os pesquisadores agora afirmam que Cleópatra, mulher que encantou e influenciou os destinos dos imperadores romanos Júlio César, Marco Antônio e Otávio Augusto, era africana – precisamente, do norte da África”. Diz a publicação.

Não só Cleópatra demonstra o traço de origem negra dos egípcios, segundo o site antigoegito.org, existiram Faraós Negros: “Os faraós negros reunificaram um Egito fragmentado e marcaram sua paisagem com monumentos gloriosos, criando um império que se estendia desde a divisa meridional na atual Cartum, seguindo na direção norte, até o Mediterrâneo. Eram poderosos o bastante para enfrentar os sanguinolentos assírios, e talvez com isso tenham salvado a cidade de Jerusalém.”

Então, se a origem da dança não pressupõem mulheres brancas, de onde vem a predominância da pele clara e dos traços europeus? Lendo um dos comentários na antiga comunidade do Orkut que mencionei acima, encontrei a seguinte explicação: “O fascínio ou o horror, acontece quando nos deparamos com algo diferente do que estamos acostumados a ver. O fascino dos homens árabes são mulheres nórdicas, as escravas mais caras eram as nórdicas. Tez branca, olhos azuis, loiras ou ruivas. Valiam muito mesmo as nórdicas. E como dança do ventre estava e está associada a sexualidade, a sensualidade ao fetiche masculino, este se projetava nas bailarinas branquinhas, de cabelos longos de preferência loira”.  Será? O comentário está identificado como “anônimo”, então não tenho como perguntar a pessoa qual é a sua fonte. É só uma hipótese.

Faraós Negros - uma história ainda pouco contada, que da conta da origem dos egípcios
Faraós Negros – uma história ainda pouco contada, que da conta da origem dos egípcios

Em todo caso, com os meus poucos 4 anos de dança, aprendi que para a Dança do Ventre, basta o amor a arte. É claro que o preconceito de alguns ainda existe: “Infelizmente para nós [brasileiros], mulheres negras brasileiras estamos ligadas ao samba, carnaval, axé, dança afro, e cultos africanos. A mulher negra brasileira tem que sambar. O que ela está fazendo vestida de bailarina da dança do ventre? Este não é o seu lugar”, diz um depoimento no mesma comunidade do Orkut. Acho que pra fugir disso, muitas mulheres negras tentam alisar os cabelos, colocam lentes, dão uma “enbraquecida”, para se sentirem mais confortáveis, melhor aceitas; o que é uma pena.

Tenho visto cada vez mais mulheres negras no meio. Tenho participado de Festivais e percebido esse crescimento, mas, cada vez que vejo uma negra com o cabelo alisado, apliques lisos enormes (e pavorosos), lentes de contato; fico me perguntando o que foi feito de nossa personalidade, de nosso orgulho de sermos o que somos. Por outro lado, bato palmas cada vez que vejo um cabelo encaracolado, crespo, a beleza natural e genuína!  Não me entendam mal, esse artigo não é o protesto contra a mulher branca, contra a chapinha ou as lentes de contato. Antes é um grito de liberdade!

Seja você quem for, como for, com o cabelo que tiver, venha dançar! As portas desse mundo mágico que é a Dança do Ventre estão e sempre estarão abertos pra você! Olhe para o espelho e aceite: Você é linda!

Selecionei o vídeo de uma bailarina que acabei encontrando nas minhas pesquisas sobre este assunto. Uma bela mulher, uma linda dança.  Se alguém conhece-la ou tiver assistido mais vídeos dela, me mandem, por favor, não encontrei mais nada, infelizmente…

11 comentários sobre “A mulher negra na Dança do Ventre

  1. Gostei muito, pois também estou pesquisando sobre isso e só achei o seu texto se achar mais alguma coisa, publique. Um grande abraço de outra dançarina do ventre negra.

    1. Que bom que gostou! 🙂
      Realmente não há muita literatura sobre o assunto mas, esses dias, pesquisando sobre a escolha do figurino, outro texto que fiz para o blog, me deparei com um falando sobre a aceitação do cabelo crespo na dança “Black Power na Dança do Ventre”. Achei um relato super interessante e talvez lhe intrelece: http://dancadoventrebellymaniacas.blogspot.com.br/2013/05/black-power-na-danca-do-ventre.html
      Bjos! :*

  2. Texto maravilhoso menina, sou negra, faço dança do ventre e confesso que me rendi a tal progressiva que tirou os cachos naturais de meu cabelo.Amei! Parabéns! Vou compartilhar seu texto!

    1. Que bom que gostou! 😀
      Eu, de uma certa forma me rendi também, usei tranças durante muito tempo, pra alongar meu cabelo. Aquela velha história de que cabelo grande é melhor pra DV. Hoje tenho meu cabelo curto, crespo e cacheado e não troco por nada!
      Bjo grande!

  3. olá, também faço dança do ventre e isso também me incomoda, pois sou negra tenho cabelo crespo e curto!
    Tenho como referencia a Amar Gamal, porem esta alisa o cabelo rs. Outra bailarina que estou amando conhecer e que usa o estilo afro é a Ebony Quals!!! Ambas são americanas mas já valem como referencia!!!
    Continue publicando bjs Nanda

    1. Oi Fernanda! A maioria das bailarinas realmente alisa o cabelo, né? Uma pena. Bom, eu uso as bailarinas como referência em dança e nesse caso a cor nem o cabelo fazem diferença, mas em estilo decidi que eu mesma serei minha referência. Se me sinto bem, se estou feliz, tá tudo certo. Bom, se quiser continuar discutindo sobre essas questões criei uma página pra isso, a BellyBlack. Tenho certeza que vai gostar! https://www.facebook.com/bellyblackdv

  4. Oi Maristela Rosa, adorei seu texto. Amo dança do ventre, não que seja dançarina, não sou, só fiz seis meses de dança, sou uma senhora apaixonada por esta modalidade da qual não entendo nada, mas amo. E, sou mulher negra que se recusa a alisar os cachos. No máximo, coloco rasta. E nunca vi uma mulher negra dançando a dança do ventre. Fiquei hiper feliz de ler seu texto. Você não tem noção da alegria de não me ver solitária nesta caçada reflexiva. Obrigada por não ter desistido desta importante pesquisa e nos brindado com este belo trabalho.

    1. Oi Sandra, obrigada pelo carinho! Que bom que gostou do texto, é realmente uma reflexão constante pra mim, desde que comecei a encarar minha dança como algo profissional. Acho que vai gostar de uma página que criei no Facebook, a Belly Black: http://www.facebook.com/bellyblackdv?fref=ts
      Criei justamente pra discutir esses padrões e valorizar a arte e a mulher negra dentro da Dança do Ventre, vai descobrir mulheres negras maravilhosas, arrasando na dança! Bjos!

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