A escolha do Figurino

Por Maristela Rosa

Desde que comecei a escrever para o Blog tenho me relacionado de uma outra maneira com a dança do ventre. Além de começar a fazer estudos mais profundos sobre assuntos diversos, tenho estudado e observado a dança de uma maneira mais completa.

Quando a gente assiste a vídeos de dança de forma descompromissada, muitas vezes assistimos só a bailarinas que gostamos e aí nosso olhar fica cheio de encantamento. Porém, quando procuramos vídeos para estudos específicos nosso olhar muda e ficamos mais criteriosos. Bom, baseada nesse critério um pouco mais “apurado”, me senti instigada a escrever sobre a escolha do figurino para apresentações de dança.

Figurino 1Na dança do ventre o figurino é importante, em primeiro lugar, porque corresponde diretamente a um estilo. A dança folclórica, por exemplo, pede um estilo de roupa, enquanto a dança de uma musica clássica pede outra, enfim… Esse tipo de estudo é super importante, porque infere diretamente na cultura que estamos representando.

No texto “Da importância do Figurino na Dança do Ventre”, do site seteveus.com.br a questão da cultura em relação ao figurino é colocada da seguinte maneira: “Estamos retratando uma cultura diferente da nossa, então é necessário levar-se em consideração o contexto social e histórico; para não cairmos em contradição ou ferir de alguma forma a cultura alheia”. Pois é, em se tratando de uma cultura alheia, todo cuidado é pouco.

Antes de fazer uma apresentação, portanto, incentivo a todos e todas a pesquisarem sobre o estilo e a música que escolheram, mas antes de tudo, conversem com suas professoras. Avaliações externas são sempre bem vindas. Porém, ao meu modo de ver, a escolha do figurino ultrapassa as questões culturais, influem diretamente em como nos comportamos e em como as pessoas percebem a nossa dança.

“Nosso show não é uma continuação da vida cotidiana, e sim algo diferente, e o figurino nos ajuda a fazer essa distinção” (seteveus.com.br), sim, o figurino nos ajuda na composição de nossa dança, a “entrar no personagem”.  Mais do que isso, o traje que vestimos nos ajudam na comunicação com nossos espectadores.

O Blog “Memoria feita a mão” explica que, para um ator o figurino em cena é mais do que uma vestimenta e que cada elemento é escolhido de forma cuidadosa: “Ele é mais do que a simples roupa que veste o ator, pois cada elemento que o compõe tem uma razão específica para estar ali. Formas, estilo, volumes, cores, texturas, tecidos; são todos elementos visuais importantes que podem transmitir a época, a situação econômica, política e social, indicar a região ou cultura, estilo do personagem, estação climática, aspectos psicológicos”.

E porque não aplicar este conceito, que vem do teatro, para a dança? No caso do teatro há um enredo, há falas, uma história é realmente contada com começo meio e fim. Assim, cada personagem se insere de acordo com seu papel na história (herói, ante herói, mocinha…) e com sua figura apresentada ao público e o figurino faz parte disto. No caso da dança podemos pensar que a música que escolhemos é o enredo, com começo (introdução), meio (desenvolvimento da canção) e fim (finalização). Então porque não pensar nas cores, nas texturas e nos efeitos que queremos transmitir?

Se você vai dançar uma musica clássica, por exemplo, será que “qualquer” roupa do seu acervo que seja composta de saia + cinturão + top serve? Bom, você não está fazendo nada de errado, não estará indo contra a cultura da dança. Mas você pode ir além: escute a música e pense em que tipo de “enredo” lhe vem a mente – é uma música romântica? Alegre? Introspectiva? Quais as cores que posso usar pra que todos entendam esta “história” que vou contar? Que tipo de tecido?

Enfim…Isso tudo vai  ajudar a compor uma apresentação harmônica, que encante e figurino 2prenda a plateia. Mas a importância do figurino vai muito além de uma apresentação individual, antes influencia em como as pessoas observam todo o movimento da Dança do Ventre. Não estou falando dos movimentos como “redondo” e “oito”, mais sim da nossa dança como um movimento que se insere como arte.

Infelizmente, as pessoas (principalmente as leigas no assunto) tendem a classificar a “parte” como o “todo”. Assim, quando assistem a uma apresentação vulgar tendem a classificar a dança como vulgar e não a bailarina. Você pode pensar “ah, eu gosto de mostrar um pouco mais o corpo, combinar uma saia pelada com um belo decote” e você tem esse direito. Porém, antes de vestir seu figurino, pergunte-se o que está fazendo para contribuir com a nossa arte.

Sim, essa é uma questão importante que, infelizmente, muitas bailarinas não param pra pensar. Não é novidade pra ninguém que nossa dança é cercada de preconceitos, principalmente no que diz respeito à “sensualidade” que muitos atribuem à dança do ventre. Será que não seria apropriado nos perguntarmos até que ponto estamos contribuindo para a quebra ou a manutenção destes estereótipos?

A intenção não é propor a dança de burca nem nada parecido, mas sim o bom senso. Nossa dança é cheia de sentimentos: alegria, emoção, amor, saudade… Porque não explorar essas nuances em nossos figurinos? Porque não colocar mais alegria em seus trajes? Bom, é só uma sugestão, mais um assunto para a reflexão nossa de cada dança!

Para ilustrar como uma boa escolha de figurino faz a diferença em uma composição de dança, separei alguns videos pra vocês:

Neste vídeo a bailarina Kahina está representando “os Deuses da Mitologia Grega”.  Não é preciso fazer muito esforço para perceber as influencias da mitologia grega no figurino e nos acessórios que a bailarina usa. Percebam ainda como a leveza do tecido da calça e a fluides da ceda do véu e seus movimentos casam muito bem com a música. Uma apresentação muito coesa.

Essa apresentação casa tão perfeitamente  a dança e o figurino, que não consigo imagina-la de outra forma. Vanessa Castro sempre se veste de maneira muito adequada e este vídeo é só mais um exemplo disso. A roupa da bailarina, em especial a saia, atendem de forma perfeita aos efeitos dramáticos da música.

Esta apresentação é uma fusão entre Dança do Ventre e Tango. Assim, o vestido vermelho aveludado e o coque cabem perfeitamente a dança. Apesar de eu achar a abertura na barriga desnecessária, o figurino casa de maneira correta com a coreografia.

Por ultimo, porém não menos importante, deixo aqui o vídeo “FALA ESME! #5 – Qual a historia do seu passo?”, onde a bailarina Esmeralda aborda, de forma bem humorada, a importancia de entender o que se quer apresentar e como expor isto no palco. Vale apena assistir

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